28.5.09

Anos 90

Resgatando músicas dos anos 90.

Minha adolescência. Adolescência perdida (literalmente). Não-vivida, não-curtida. Ah, aquele portão, aquela calçada. Aqueles sonhos.

Sonhos, sonhos. Eles fazem bem ou mal? Acho que na ponta do lápis, mais devem do que pagam. E é isso exatamente o que foram aqueles anos: de sonhos na calçada. Visão feia, só a lua com sua beleza. Asfalto, cimento, mato entre pedaços quebrados de concreto. Guias. Carros, poucos. Bicicletas, muitas. E a vida passando, passando.

Será essa a hora de fazer jus ao tempo que perdi dos anos 90, fazendo de suas músicas trilhas de momentos novos e, finalmente, de verdade?

Ao som de Ultra - Say It Once

21.5.09

Tic tac tic tac tic tac tic tac

“Open up your mind and see like me” (Jason Mraz – I’m Yours)
“Open up your eyes. Just open up your eyes” (Coldplay – Politik)

Olhar, olhar. Para dentro, para fora; para o mundo, para si mesmo; para o outro, para o espelho; para o corpo, para a alma. Olhar, olhar; pensar, pensar; refletir, refletir; cansar, cansar.

Viver cansa. Raciocinar cansa. Batalhar cansa. Questionar cansa. Tentar não questionar cansa. Tentar não batalhar cansa. Tentar não raciocinar cansa. Tentar não viver cansa.

Onde está a paz? Onde está a simples sensação de bem-estar? Onde está o não-tormento, a não-dor, a não-dúvida, a não-perda, o não-sofrimento. Onde está o sossego, o aconchego. O descanso para o coração, para o cérebro. O descanso para a alma, o descanso para si mesmo.

Simplicidade, abra as asas sobre mim. Envolva-me em um abraço tão forte, tão quente, tão carinhoso. Me leve a mares nunca antes navegados, a sensações nunca antes sentidas. Mas boas sensações, por favor. Porque de ruins... acho que chega.

Janelas, portas, paredes. Paredes. Chão, camas, travesseiros. Travesseiros (três amontoados). Piso sem azulejo, água quente, vento. Água fria, toalha, chinelo, cama. Cama. Dor, dor. Desespero, desespero. Desamparo, desamparo. Obrigações, obrigações, obrigações. Peso, preguiça, desalento. Pensamentos, malditos pensamentos. Faixas de pedestre, trânsito, quase atropelamento. Ônibus saindo, corre. Entra, abre rápido a mochila. Passa. Tenta ler, tenta ler, não dá tempo. Desce, anda, anda. Corre, corre, envergonha-se de ter corrido em vão. Entra, passa. Lê, lê, lê. Sem rumo no rumo.

Em tudo, pensamento, pensamento. Memória, memória, sonhos, passado, presente, futuro. Passado. Futuro passado. Presente passado. Passado presente. Sol, sol. Esperança em teus raios, raios leves. Mente pesada, mente cansada. Sobe escadas, pega elevador. Abre porta, se acomoda. Urra por dentro de dor.

Tempo, tempo, tempo, tempo. Onde estás, de onde vens, para onde vais. Me leva contigo? Para um tempo em você, tempo, em que tudo aqui dentro já tenha se modificado, amadurecido, superado, enfrentado? Desculpas pela fraqueza, pelo desejo de fuga. Fuga, alento, socorro, desespero. Desespero desesperado em desesperar.

Sol, leve sol. Caminhada, calçada, gente. Tomates com queijo, folhas verde-escuro, arroz com lentilhas. Peixe, azeite, azedume. Escadas, cadeira, mesa. Vazio, mente adiante, mente tentando trabalhar, mente tentando fugir. Interior cruel, aprisionador da mente, ordena sua volta. Atenção, atenção. Você precisa dar atenção. Você precisa estar atento. Você não pode fugir, não pode se esconder. Não tens para onde ir, onde se esconder.

Dê a face, doe-se ao momento! Momento indesejado, momento odiado, momento inesperado! Não tens escolha, não tens saída. Conforme-se, ser incapaz de conformação. Não te agites, pares de bater as pernas. As chicotadas acontecerão, querendo você ou não.

Ninguém mandou escolher nascer.

7.5.09

7/5

Sobre o quê escrever?

Se o que queremos dizer de verdade raramente pode ser, de fato, dito?

Ultimamente está difícil até encontrar frases esdrúxulas e de efeito para postar no Twitter. É como se o mundo tivesse continuado e eu parado. Querendo descer...

Estranhos esses processos de desconstrução/construção. Ou será que é um processo só? A gente se constrói e desconstrói ao mesmo tempo, bem como a imagem que temos das pessoas, de tudo. Às vezes, é mais fácil ser irracional. É mais fácil ser zero emocional. Mas, um segundo: como posso saber disso se nunca fui uma coisa ou outra?

Ontem, conversando no almoço sobre assaltos/sequestros (na verdade participando sem muito ânimo do assunto, com as pernas sacudindo inquietas como agora), soltei a seguinte frase: a pior prisão é a mente. E é. É possível ser uma pessoa livre e presa ao mesmo tempo.

Hoje, e há poucas semanas, é a minha mente que me aprisiona. Às vezes me sinto tentando sentir um vento no rosto, soltar um suspiro de liberdade... mas de repente pensamentos invadem minha cabeça, inserem ao meu redor grades de um metro quadrado. E como sair? Ainda não descobri. E será que descobrirei? Ou serei liberto sem que eu mesmo perceba?

Ultimamente ando refletindo bastante sobre a separação entre o racional e o emocional. Ou se há, mesmo, uma separação entre eles. Ambos são cruéis, ao mesmo tempo em que dóceis. Ambos aprisionam, ao mesmo tempo em que libertam. E quando resolvem agir simultaneamente, tornam o ambiente interno uma bomba relógio, prestes a explodir a qualquer momento.

Questões, questões. Seria o mundo um pacote fechado, ou seja, estamos destinados a uma trajetória, da qual somos apenas parte? Ou temos realmente escolha? Ok, mas se temos escolhas, porque nosso emocional nos confere sentimentos os quais não escolhemos? Sobre os quais o racional pouco tem influência? Confuso, confuso. Confuso esse que se retém a isso – porque, na realidade, o que existe é um vazio assustador. Vazio de ideias, de esperanças saudáveis, de perspectivas felizes.

Admiro muito as pessoas que passam pela vida sem grandes sobressaltos. Que jamais refletem sobre tais coisas, uma vez que seus caminhos são sempre (ou na maioria das vezes) leves, com raros momentos de tristeza, rapidamente superáveis. E isso mesmo com mortes, perdas etc. Será que elas têm algo a ensinar? Ou são puramente assim por essência. Aliás, existe essência? Ou somos meramente um conjunto de nossas experiências, moldadas por uma natureza influenciada por um neurônio Z que se aliou a outro K e que fez de você várias coisas que você gosta e odeia. Ou só gosta, ou só odeia, ou gosta e passa a odiar e assim sucessivamente.

É engraçado (bem, essa não é a palavra correta, mas não encontrei outra. Porque, afinal, não tem graça nenhuma) como a vida sempre me joga uma realidade bem cruel quando eu me permito viajar. Embarcar em um momento feliz, sem me preocupar com o amanhã. Quando ela me vê descuidado, chega e puxa o meu tapete, me deixando estendido no chão. Sem socorro, sem ambulância, sem UTI. Tendo de me recuperar da terra, da água da chuva. Ou de lágrimas. Não posso me esquecer, é claro, do alento das tentativas de palavras de conforto – que já valem por meramente existirem. É bom saber que, mesmo do fundo da cratera de um meteoro colossal, há quem ainda olhe para você e diga: você vai sair dessa.

Inaceitável que as certezas se travistam de incertezas, e vice-versa. Que se misturem, que se mesclem, justamente para dificultar seu trabalho de reconstruir (ou destruir) a si mesmo. Que a cabeça seja tomada por passagens em faróis de trânsito, de entradas de caixas eletrônicos, em sons pegajosos de bandas ao vivo e em sensações... ufa. Em sensações.

Cadê as perspectivas? Os sonhos que não machucam – pois os atuais logo são esmagados pela cruel, embora sensata, realidade?

O meu desejo hoje era estar em um lugar/situação em que eu pudesse dizer e sentir honestamente: é aqui e agora que eu quero estar. E nada mais no mundo me importa neste momento. Tenho certeza de que aproveitaria isso como nunca antes, com uma consciência jamais adquirida. Com o deleite de um bebê faminto pelo leite materno. De um homem perdido no deserto ao encontrar um “oásis real”.

Mas pelo que parece, não há nem sinal de oásis nesse meu deserto. Só estamos aqui eu, eu mesmo e minhas lembranças.

16.11.08

Circles

Vazio que se estende. Que parece ir, mas que volta ainda maior. Que faz o corpo inteiro latejar. Que traz um medo, uma ansiedade, um certo pânico, talvez...

Sons que se misturam nos ouvidos, na mente. Pessoas ao lado, na frente. Nenhuma pessoa. Falta de ter o que dizer. Receio de sonhar. Embriaguez, ressaca.

Circulos, circulos. Entediantes, deprimentes. A vida passando do lado, vista através da redoma. Ao lado, à frente. Ao horizonte.

O silêncio incomoda. O barulho incomoda. A barriga incomoda. O corte no dedo incomoda. O relógio correndo, nem se fala.

Luz da tela iluminando o teclado. Mãos paralisadas. A cada letra digitada, um esforço quase hercúleo - mas necessário.

Come on, Pretenders.

(ao som de Back On The Chain Gang)

6.2.08

De toda desconstrução. De todos os tetos que desabam, de todas as paredes que caem, de todo o chão que se abre, de todos os destroços que restam, sobra um novo espaço, esperando para ser construído novamente.

De toda a falta de ânimo, de todo o sangue que rola pelo chão, que lambuza o teto, que mancha a parede branca, surge umidade para tornar fértil o concreto.

De todo o medo, de todos os monstros do armário, de todos os pesadelos do sono, surge uma coragem de enfrentar o caminho.

De toda a noite, de todo o vento gelado, de todo o calor sufocante, de toda a irritação com o todo, aparece um respirar calmo, um esclarecer de mente, um insight.

Quem sou eu, quem é você, quem é ele, quem somos nós?
Sou como vós, és como a mim, somos como eles?

O dia nasce ao amanhecer? Ou apenas é o adormecer da noite?

A fúria do não explicar, a súplica do não conhecer, o receio do estranhar, o embrutecer do esperar, a fuga do renegar.

Uma profusão de gestos, sons, vozes, sentimentos, sensações, esperanças, desesperanças, raivas, destemperos, saudades, abominações,

Ahhh!

Uma hora os fantasmas têm de ser despejados na privada, empurrados para o esgoto por fortes jatos de água corrente misturada a detergente. Têm de se transformar em passado real, passado concreto, passado abstrato, todas as formas possíveis e imagináveis de pretérito. Afastado, afogado, esquecido.

12.12.07

Natal

Cinco músicas.

Nada de que eu possa me orgulhar muito – por isso, melhor não listar.

Já que não ando conseguindo me expor bem com palavras, nem com gestos, nem com sussurros, talvez elas explicassem um pouco melhor estes dias...

(...)

Se eu pudesse mergulhar, como quando era criança
E ir soltando o ar dos pulmões aos poucos, para me manter submerso
Sentado ao fundo, vendo o sol através da água
Desejaria que o ar em meu peito nunca acabasse,
E que eu fosse o liberando devagar, devagar
Para que lá embaixo eu pudesse ficar, até quando eu escolhesse...

Até quando tudo parecesse mais bonito, mais alegre
Em, talvez, um dia em que eu conseguisse rir das piadas bobas,
Ver beleza nas luzes de Natal,
Nas reuniões familiares,
Nas esperanças de Ano Novo.

Mas está tudo tão vazio, tão triste, tão raso...
Que a água a meu dispor não cobre nem minhas canelas.

10.12.07

Oh, I get by with a little help from my friends

Se meu blog falasse sozinho, sem a minha interferência, certamente diria:

- Você só lembra que eu existo quando está arrasado, Adriano. Quando está feliz, sequer passa para ver como estou.

Caso isso acontecesse, restaria a mim responder:

- Tem razão, meu caro.

Aqui estou eu de novo. Quebrado.

Mas ah! Aqui estou eu, vivo. Cheio de esperanças novas, de vontade de enterrar as frustrações, de empurrar os medos ladeira abaixo. Cercado de amigos que, sim, me amam, membro de uma família linda.

Se eu morresse hoje, não levaria para o crematório nenhum arrependimento. Dei a meus amigos tudo o que podia da minha amizade, aos meus amores muito além do que poderia dar em sã consciência.

Eu vivo, sou vivo. Sei ou não sei, quero ou não quero. Incertezas não fazem parte de mim, e espero que nunca façam.

Muitas vezes me vejo sem rumo: e agora é uma delas. Mas o passado me mostrou que sempre há um caminho para onde seguir. Que a gente nada perde em ser honesto, em ser sincero. em, sobretudo, respeitar a si mesmo.

Aprendi recentemente que não devemos tentar conhecer as pessoas. Ou melhor, não devo (no singular). A minha busca deve ser a de conhecer a mim mesmo e, com isso, pautar a minha relação com o mundo.

O que ele, o mundo, reserva para mim? Não sei e, para ser bem sincero, prefiro nem saber. Acredito que a vida sabe o que eu já passei, o que andei passando. Sabe o que preciso passar. Sabe o que eu mereço e, consciente de tudo isso, sabe bem o que vai me dar.

E toda vez que as coisas não derem certo,

I get high with a little help from my friends.

10.8.07

Yes,

"Everybody's gotta learn sometimes"

Não sou diferente. Ou sou?

29.7.07

Sabe quando...

Todo o carinho que você pode oferecer ao mundo retorna a você da pior maneira possível?



Sabe quando não adianta o que você diga ou faça, as escolhas não são todas suas?



Sabe quando você sente saudade mas não pode dizer? Quando nem a raiva pode apagar sentimentos bem maiores, por mais que você queira que isso aconteça?



É, difícil entender assim. Acredite: é bem melhor nem entender nem saber do que se trata mesmo.


No player mental:
Björk - Headphones (Yes, they saved my life. Again.)

12.6.07

12 de junho

Felizes aqueles que se sentem felizes
Tristes aqueles que se sentem tristes
Vazios aqueles que se sentem vazios.

(...)

Dia 11 de junho, 22h15 da noite. Ele passa na calçada com uma cara de cansado. Mochila nas costas, roupas de quem trabalhou o dia inteiro e ainda foi para a aula, sem tempo para pensar em muita coisa.

Nas mãos, algo que destoava disso tudo, daquele calor surpreendente de junho, da calçada suja, do ar seco. Um pequeno buquê de flores vermelhas, segurado com orgulho, segurança, satisfação, felicidade.

Sorte dele e de quem recebeu aquela demonstração de... gostar, de amor, impossível saber a fase em que se encontram. Impossível não colocar um sorriso nos lábios ao imaginar que a meia-noite do dia 12 de junho foi bastante mágica para um casal. E para aqueles que se vêem nas campanhas das lojas dos shoppings.

Benditos sejam os que andam pelas ruas sem olhar para os lados.


No player Mental
Snow Patrol - Run

11.6.07

Buraco negro

Se eu pudesse definir, diria que esses são os tempos do Halls de Melancia.

Uns odeiam, eu adoro. É adocicado, como poucas coisas têm sido ultimamente. O mundo ao meu redor anda feio, sujo, triste. Muito triste.

Acredito que as pessoas confundem bastante o verdadeiro significado do termo ‘alegria’. Para mim, várias atitudes tidas como alegres são tão... melancólicas. Basta se esforçar apenas um pouco para ver que, por traz delas, reside o vazio. Vazio que, a cada dia, parece invadir mais e mais a mim, o outro, o conjunto formado por nós todos e, afinal, tudo.

Em alguns momentos, parece que esse buraco negro vai me engolir. Em outros, pego-me a pensar se ele é ilusão da minha mente ou se somente eu o percebo.

Será que esse vazio é causado pela diminuição evidente não da camada de ozônio, mas da camada de consciência? Ela é cada vez mais rarefeita. Censora do caráter, algoz dos maus atos, ela está fraca.

Talvez a minha consciência deva se unir à do mundo, antes que eu esteja fora dele. Talvez ela deva ficar também fina, se desvanecendo. Seria uma ótima alternativa para diminuir essa dor que, muitas vezes, se torna inerente ao viver.

No player mental
The Killers – Read My Mind

31.5.07

Eu me...


¬¬


Odeio.

28.5.07

Salvando da lixeira



Sentimentos esgotados

As forças estão acabando...
Sinto a fraqueza bater à porta
Que decepção...

Algum dia isso vai ser resgatado
Espero estar bem, espero ainda ser jovem
Porque o que mais dói não é o fato de perder
Mas sim de estar com os "sentimentos esgotados"...


(P.S.: impedi um amigo - quem me conhece sabe bem quem é - de cometer a grande atrocidade de jogar um desabafo dessa magnitude no lixo. Quero que ele fique aqui, imortalizado, para jamais ser esquecido. Isso porque nós, seres humanos, temos uma enorme tendência a esquecer os caminhos tortos que precisamos conhecer para chegarmos ao lugar de nossos sonhos. E como sei que ele vai chegar em breve até o dele, faço questão de que o texto fique aqui, como lembrança - e esse meu extenso 'P.S.', como profecia.)

Amélie

No metrô, todos lhe davam um olhar curioso. Escondida, protegida, a pequena nem se importava com o ambiente. Talvez ela nem soubesse para onde estava indo.

Difícil saber se as eventuais quedas de pedrinhas que mantêm seca a parte baixa de seu corpo incomodavam. O plástico às vezes esbarrava em uma das três flores que a enfeitavam. Ela parecia, no entanto, ignorar esses pequenos acontecimentos. Certamente já passou por situações piores.

Ao entrar em casa, tornou-se imperativo dar a ela um nome que contemplasse o significado que ela passaria a ter naquele momento. Uma, duas discussões ocorreram até que se chegasse ao veredicto final: Amélie, como a Poulain. A da fragilidade forte, a da ingenuidade esperta, da docilidade arredia.

Manter-se imune ao excesso de líquido é importante para ela e para todos os seus, os cactus. Por isso, uma das grandes preocupações foi com a quantidade de água a ser dada semanalmente à Amélie, bem como seriam seus banhos de sol. Como um ser tão rígido, tão cheio de espinhos, pode ao mesmo tempo ter flores e ser tão frágil?

Insight: uma identificação instantânea.

No entanto, o que mais admiro em Amélie são suas diferenças em relação a mim. Em primeiro lugar, seu desprendimento da água. Não é como eu, não precisa de banhos homéricos ao acordar. Em segundo, sua facilidade em ferir ao ser atacada, ou seja, saber se defender de forma imediata e eficaz. Em terceiro, sua habilidade em não expor suas fraquezas – a qual venho perseguindo, com grandes avanços.

Será que ela teme? Acho que não. Mesmo assim, vou tentar dar-lhe um pouco de atenção todos os dias. Muitas vezes se erra ao pensar que só a merece quem a pede – quando a verdade reside também no caso completamente contrário.

É uma relação que vale bastante a pena cultivar. Um fator garante essa certeza: Amélie não vai me deixar – ao menos que eu não a deixe antes. Para não torná-la totalmente dependente de mim, o que pode não ser bom para seu bem-estar, penso em lhe dar irmãos. É bom conviver com quem possa compartilhar de sua realidade, seus dramas. Infelizmente, nossa distância genética impede tal grau de entendimento - embora ela ainda vá me escutar muito, mas muito mesmo.

Amélie pode se considerar um ser bastante feliz. Nasceu sem ouvidos.

No player mental
Maria Bethânia - Cheiro de Amor

21.5.07

Inquietude

Tenho a conhecida ‘síndrome das pernas inquietas’. Escovo os dentes andando pela casa. Danço ao falar ao telefone. Viro-me desesperadamente na cama quando não consigo dormir.

Sinto a mente latejar quando não consigo resolver problemas. Brigo contra a paralisia que impede me fazer compreendido. Choro pelas distâncias que não posso ultrapassar. Odeio a sensação de estar tão perto, e tão longe – e às vezes a de se sentir perto, unido, mesmo estando completamente longe.

Amo os dias frios e nublados, que me deixam tão triste. Espero pelo dia em que eles não mais me deixem assim, simplesmente porque sei que, na verdade, não possuem essa responsabilidade. Respiro de forma difícil o ar da intolerância, do não-amor. Anseio pela despedida do vazio.

Abraço a inquietude, existente mesmo quando estou quieto. Mantenho mal-informados os que vêem em raros momentos de pernas paradas expressão de paz. Transfiro o pulsar para a alma ofegante, eterna inquisidora.

Olho para o teto, para os cactus. Digito as últimas palavras. Desejo incessantemente que essa fase se vá - se possível antes do desabrochar da última flor de maio.

No player mental
Röyksopp - What Else Is There

24.4.07

Simbiose

Ele, enorme moicano negro no meio da cabeça,
Ela, capuz sobre o cabelo channel verde.

Ele, quase em posição fetal,
Ela, dando colo.

Ele, entregue ao afago,
Ela, entregue à compaixão.

Eles, às 9h da amanhã,
Eles, no canto da calçada.

Eles, se protegendo do sol,
Eles, alheios a metrópole que não pára.

Eles, provavelmente matando aula,
Eles, provavelmente compartilhando segredos.

Ambos, escondidos,
Ambos, vendo apenas um ao outro.

Ambos, esquecendo o mundo,
Ambos, imunes ao mundo.

Ambos, o mais profundo simbolismo,
Ambos, esperança de uma chance.

26.3.07

Não é por ser março, mas...

(...) ainda bem que nasci homem - deve ser muito difícil ser mulher.

Escada do metrô lotada, escada rumo aos trens destino Jabaquara, na Sé, às 8h45. Eu, meu interessante texto de Sociologia, 'História da Vida Privada', no volume que aborda a época Pós-Revolução Francesa, tratando da gênese de muitas das questões que levaram à emancipação feminina. Ela, ao meu lado, mostrando que ainda falta muito. Um passo em falso na descida e seu salto alto quase à faz rolar escada abaixo, no meio de centenas de pessoas (quem já esteve nesse ponto da malha metroviária em uma segunda-feira, nesse determinado horário, sabe bem como é).

Alain Corbin falando sobre a difusão do uso do espelho no século XIX - limitado ao rosto, uma vez que o corpo da mulher não era para ser visto nem por ela mesma, durante o banho. A moça quase se arrebentando por estar de salto, no século XXI. Eis as contradições do mundo.

Como homem, posso andar de madrugada pelas ruas desta metrópole. O máximo que pode ocorrer é eu ser assaltado. Não reagindo, o meu risco de morrer é mínimo. Já para uma mulher, uma garota, o perigo é bem maior. No meu ver, a violência sexual é uma das mais terríveis às quais uma pessoa pode ser submetida. Não que alguém do sexo masculino esteja totalmente imune mas... é quase impossível.

E a menstruação então? Deve ser por demais horrível sangrar por dias, todos os meses. Ter de andar com uma micro fralda entre as pernas. Aquilo deve esquentar pacas, ser muito incômodo. Isso sem contar as reações comuns à esse acontecimento a elas tão corriqueiro: cólicas, mau humor e outros até piores.

É, caro Corbin. Talvez caia bastante bem abordar esse assunto sob a ótica de hoje. Embora menos visível, essa problemática existe. E como existe.

Um adendo: garota cercada de amigas em frente ao bar mais famoso da praça, sábado à tarde, com cabelo milimetricamente assimétrico, bermuda curta quadriculada, blusa preta solta, sapatinho baixo indescritível e uma encantadora voz grave. Há tempos não via tanta graça e despojamento. Prova de que há pessoas naturalmente belas...

Ouvindo: Mika - Grace Kelly / Kaiser Chiefs - Ruby

7.2.07

Sinais

Era domingo. Dia 7 de janeiro de 2007. Mas não vou ser ridículo ao ponto de dizer que era 12h57...

Adriano seguia para sua (e de todos os classificados) primeira prova na segunda fase da Fuvest. Nas costas, uma mochila com óculos, canetas e lanche. Na cabeça, peso na consciência por praticamente não ter estudado após a prova da primeira fase (que aconteceu no final de novembro), de ter viajado, de ter estudado menos do que deveria e ter passado para essa parte do processo somente com a nota de corte. Bah, o que ele estava fazendo lá?

Rua Nossa Senhora da Lapa, Lapa. Faculdade Campos Salles, local da prova. Leitura rápida e inútil na calçada do outro lado da rua. Entrada rápida na lanchonete vazia, que lucrava como nunca na venda de garrafas e copos de água mineral. Nervoso, trêmulo. Com sono. E achando que era impossível aquilo dar certo. Copo de água pedido. De repente, o rádio chama a atenção. A música, mais ainda - afinal, era bastante conhecida. Dizia:

"Look at the stars,
Look how they shine for you,
And all the things you do,
And they're all yellow...
"

Yellow, do Coldplay! Será isso um sinal? Não, deixa de ser panaca Adriano. Essas coisas não existem.

Prova de domingo. Prova de segunda-feira. Prova de terça-feira (ufa, acabou). Sensação de... "não faço a mínima idéia de como me saí". Melhor não ler as correções, nem ao menos compará-las com as respostas dadas.

Passa um mês. Fevereiro. Anteciparam o resultado para o dia 6, às 16h. Checagem às 9h, às 10h, às 11h. Às 15h, saiu! Abre rápido, sem pensar. Busca o nome - que deveria estar já na primeira página. Deveria estar não, ele está!

\o/\o/\o/\o/\o/

E foi verdade. As estrelas brilharam para mim, e iluminaram o que fiz. "And they're all yellow"!

P.S.: Não irei ao primeiro dia de aula. Afinal, preciso agradecer ao Coldplay e, é claro, à "Yellow". Dia 26, no Via Funchal! Estarei lá.

29.1.07

Early in the morning...

Difícil conseguir começar uma semana com algo plausível e interessante de se dizer. Mas vou tentar, mesmo assim.

E olha que foi só de passagem...
Rua Augusta, sentido centro, 5h30 da manhã. Algumas moças tristes encerram seus expedientes – outras, vai lá saber quando terminarão a jornada de domingo. Uma tenta subir com sua saia hiper-ultra-mega curta em uma moto cujo motorista, é claro, fica impossível de definir se é último cliente da noite, namorado, irmão, moto-taxista (sei que isso é ilegal aqui na Capital, mas vai lá saber, não?) ou até marido. Outras, ainda tentam angariar o último cliente da noite.Três atravessam a rua, uma delas obviamente grávida.

Com seus cabelos castanhos cheios de luzes na parte frontal, outra delas, visivelmente bêbada ou drogada, carregando uma enorme bolsa preta – a qual com certeza continha suas roupas de trabalho–, surpreendentemente diz algo a este transeunte que agora vos fala, após cruzar seu caminho:

- Não quer me levar no colo para casa?
- Ih, só se fosse você que me levasse no colo – responde, sorrindo.
- Está só passeando?
- Não, estou voltando para casa mesmo. Tenho que trabalhar daqui a pouco. A noite foi boa para você?
- Sim, foi sim – diz do mesmo lugar em que iniciou a conversa, há mais ou menos três metros de distância.
- Espero, então, que as próximas noites sejam tão boas quanto essa. Tchau!
- Obrigada! Tchau.

Não sei se foi a melhor coisa a se dizer. Desejar que as próximas noites fossem como aquela? Isso poderia até soar como piada. Mas, se tratando desse mundo cão que residimos, talvez fosse hipocrisia esperar por algo diferente para ela. As chances de isso ocorrer, infelizmente, são quase nulas. Agora, de que tudo pudesse piorar...


Como deixar de ser babaca
Oh, o adolescentezinho babaca, que achava saber de tudo do interior de seu quarto, dizia aos quatro ventos considerar o cúmulo do absurdo as pessoas beberem e se drogarem. Achava fraqueza de caráter, fuga dos problemas, bah. Como ele era superior! Quando, na verdade, não era nada mais do que uma criança medrosa e sem perspectivas, que só não virou um religioso fervoroso, felizmente, um dos defeitos que não possuía era ser hipócrita para dizer que tudo era falta de Deus.

Pois então. A gente cresce. Sofre muito mais do que achava que sofria por causa daqueles motivos torpemente ridículos – e que, é claro, julgava tão grandes! E começa a tomar aqueles porres homéricos para tentar esquecer o mundo, pelo menos por algumas horas. Somente não usa drogas por saber que é fraco demais para agüentar a barra, e porque não é pretensioso a ponto de achar que é mais forte que elas. E porque leu o suficiente para saber o mal que elas fazem e, ainda mais, porque já sabe como é difícil, mesmo para quem não consome substâncias ilícitas, pagar o aluguel, as outras contas da casa, o plano de saúde e, principalmente, o cartão de crédito e o cheque especial!

Mas o ponto principal desse tópico não é esse. O mais importante é aprender a não apontar o dedo para o nariz dos outros. Aquela pessoa está caída de bêbada? Quem é você para julgá-la fraca? Ou melhor, quem sou eu para julgar quem quer que seja? E olha que esse foi só um exemplo...

É, caro Dostoievski. Será que, quando escreveu ‘Crime e Castigo’, saberia que mudaria a forma de pensar de um provinciano brasileiro do século XXI? Com certeza, não.


Sim, gosto de confete
Assumi para mim mesmo, e para meus amigos Jean e Felipe, presentes naquele momento, que gosto, sim, de confete. Sim! De estar louco para ir a algum lugar, mas estar em dúvida, e ouvir todos dizendo “vamos, vamos”. De sentir a presença importante, necessária. De ouvir que estou bonito com aquela roupa, que estava com saudades das minhas colocações babacas. De que o molho pronto que esquentei para o macarrão está ótimo. Afinal, coloco água e tempero um pouco para ele render mais, oras!


Fevereiro, fevereiro!
Odeio saber que o tempo voa, que já tenho 23 anos, mas... ah, será que posso abrir uma exceção?

Quero muito que fevereiro chegue, e que seus primeiros quinze dias sejam bem rápidos. Isso porque tem Carnaval em Floripa! E, logo em seguida, show do Coldplay (ok, não vou repetir a ladainha de um dos posts abaixo... todo mundo que me conhece sabe o quanto gosto dessa banda e blá-blá-blá).

Sim, meu ano, provavelmente, começará depois do Carnaval, e depois do Coldplay. Queria muito que começasse antes. Quem me conhece sabe do que estou falando (claro que não tudo, porque sou orgulhoso demais para reconhecer que espero por algumas coisas. Até para mim mesmo tenho me surpreendido omitindo vontades!)...


No player mental
Carla Bruni – L’excessive (sim, descobri que sou excessivo, exagerado mesmo. Tarde, não?)

26.1.07

Alguém pode?

1º Me mandar cobrir o Iraque;
2º Fazer eu nunca mais mentir para mim mesmo;
3º Me obrigar a parar de pensar no que não devo e, principalmente, em quem não devo;
4º Exigir que eu não precise mais controlar esses pensamentos - fazendo eles sumirem;
5º Ensinar como ter mais paciência;
6º Convencer a não gastar mais e pagar as minhas contas;

Etc, etc, etc...

23.1.07

Donde estás?

Não é a primeira vez que escrevo aqui sobre inspiração.
Tampouco será a última.

Nesse momento, ela me falta muito, como poucas vezes ocorreu.
Falta motivação, falta entusiasmo. Falta.

Seria ótimo se ela pudesse ser buscada dentro de minha mochila. Ou então estivesse na geladeira, ou mesmo no armário. Mas não. Ela está em um lugar ao qual não tenho acesso, mesmo que, contraditoriamente, este esteja dentro de mim.

O pior é que eu sei o que desencadearia o reaparecimento dessa minha amiga tão querida. Aquela que eu queria, permanentemente, junto a mim.

Muitas vezes, ela é só o me que resta.