Tarde quente de 2001.
Adriano, deitado sobre sua cama de lençóis de marinheiro (azul e branco), lotada de papéis, escutava música no rádio-relógio branco, hoje falecido. A TV, provavelmente, estava no mudo. A janela, no lado oposto do quarto, exibia um céu límpido, adocicado com pinceladas de nuvens cor de algodão.
De repente, um piano começa a tocar. Uma sobrancelha se levanta, o dedão do pé aumenta o volume do rádio e aperta novamente o 'On', uma vez que talvez ele desligasse sozinho naquele momento (para quem não conhece, esses modernos aparelhos têm períodos de 59 minutos de funcionamento, caso você não aperte o botão novamente). O piano toca, toca...
Ele se acalma. E aquela voz, como uma flexa, entra no ouvido, percorre a pele e causa aquele arrepio característico, na parte superior das costas e nos ombros. Cantava, dizia, apresentava algo mais ou menos assim:
"Oh no, I see...
I spider web is tangled up with me
And I lost my head
The throught of all the stupid things I've said..."
E a voz parou, o piano saiu do fundo, e ganhou a frente. E nisso, foram alternando o destaque, até que se uniram, junto a guitarras e baterias, em um chorus lindo, de tão triste. Foi nesse dia, que irreponsavelmente não lembro exatamente qual, que eu conheci o Coldplay. Foi nesse dia em que essa banda entrou na minha vida, para se tornar trilha sonora de todos os momentos que vieram a seguir (e olha que não foram poucos). Haja repertório.
(...)
Em 2002, hora de entrar na faculdade. O André, um dos novos amigos feitos na sala de aula, surge com uma cópia do 'Parachutes', de presente. De 'Trouble', que cantarolava há meses, a descoberta chegou a 'Don't Panic', a inexplicável 'Yellow', 'Shiver', 'Spies' e a ignorada por muitos, mas profundamente apreciada a partir de então, 'High Speed'. A partir daí, o caminho era sem volta.
Chega outubro. A turma organiza uma festa surpresa de aniversário. A pedido de Jean, Carol grava um CD, presente dele - afinal, ela conhecia bem o gosto musical do aniversariante. A primeira canção, não surpreendentemente, era 'In My Place', o primeiro single do 'A Rush Of Blood To The Head'. Semanas depois, a mesma Carol (ela nem deve se lembrar disso) sentencia: "tem uma música no cd novo deles que é a sua cara". Para quem conhece o Adriano, não é nem preciso dizer qual é. Mas para quem não conhece, e que porventura venha a ler este texto daqui uns séculos...
"Come up to meet you
Tell you I'm sorry
You don't know how lovely you are..."
É bobo, mas muitas vezes, na maioria das vezes, aliás, as pessoas precisam criar codinomes para utilizar como nickname na Internet. Desde então, Adriano virou 'The Scientist' no MSN - com exceção de uma crise existencial, que fez ele utilizar "." e frases bobas para isso. Sorte que se deu conta a tempo: nada o descreve mais nesses últimos anos, embora não saiba até quando, como 'The Scientist'.
(...)
Chegou 2003. Coldplay vem ao Brasil. Perfeito, não é? Isso se não fosse por um detalhe: o show de São Paulo acontece bem na semana em que Adriano está em Belo Horizonte, num Congresso com a faculdade. Restou assistir o 'Live 2003', exibido com exaustão pela MTV naquele momento, na Tv precária do lendário Brasil Palace Hotel...
Surge 2004. 'Warning Sign' embala uma das ridículas desilusões amorosas. Época de ouvir 'Clocks' umas cinco vezes ao dia, de baixar incessantemente B-Sides. 'Brothers And Sisters'! Versão acústica de 'Moses'! Até cover de 'Hunting High And Low', do A-ha. Será que eles não poderiam fazer algo possível de ser odiado?
(...)
Ano-chave, 2005. Estágio novo e intenso. Jornal, jornal, jornal! Último ano da faculdade. TCC, TCC, TCC! Poucas horas de sono, quatro ônibus por dia. Não poderia deixar de aproveitar uma ida ao shopping durante o almoço para comprar o 'X&Y'. Claro que já havia baixado, mas precisava ter... Ficou um tanto bravo por não utilizarem a primeira versão de 'Talk' (a qual prefere até hoje). Canções antes ouvidas em show pirateados na época, originais. A revolução das guitarras. Uaaaaau...
Via Dutra, final de tarde. O gravador comprado para armazenar as entrevistas do TCC também comportava umas 20 músicas em MP3. Ombros levantados ao caminhar pela grama, com carros, caminhões e ônibus ao lado, ouvindo bem alto a versão 'Live 2003' de 'Politik', delirarante. A inspiradora reta final de 'Fix You'. Enfim, a coragem da qual precisava naquele ano nebuloso.
(...)
Hey, 2006... ano de show do Coldplay no Brasil. Cancelado... turnê interrompida , segundo informações, pelo nascimento de Moses, irmão de Apple e segundo herdeiro de Chris Martin e Gwineth Paltrow. Com um motivo como esse, nem foi possível ficar bravo. No entanto, acreditava que demoraria muito para eu ter uma segunda chance, após a desperdiçada em 2003. 'The Hardest Part' ganha um clipe majestoso, e entra na trilha da novela das 8. 'A Message', muito ouvida, se torna símbolo de sentimentos distantes distantes. E que fazem falta.
Final de novembro. "O Coldplay vem para São Paulo? Não pode ser verdade, não vi nada na Folha Online". Então olha lá, Adriano. Olhe. "Uhuuu, é verdade!". Dia 4 de dezembro, 12h, ingressos começam a ser vendidos. Às 12h30, entrada garantida, ufa.
Dia 26 de fevereiro de 2007, primeiro show deles no Brasil, de um total de três (estão estudando um quarto). O lugar pode até ser um dos piores (foi o único que o parco orçamento mensal permitiu comprar), mas não importa. É uma dívida consigo mesmo, e com o Coldplay, a ser paga. Qual vai ser a reação no momento tão esperado? Não tem como saber. A sorte é estar sozinho, sem nenhum conhecido perto. Inevitavelmente algumas lágrimas cairão (não por tietagem, blergh), mas por ver sua história recente passar como um filme em sua mente, rodado pelo poder do som.
Impossível não contar os dias.
7.12.06
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